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As similaridades da arte e da vida

19 de Maio de 2017 | Autores

Estou em uma semana em que a vida me presenteou com duas histórias peculiares, tristes e inspiradoras. Refiro-me à nova série da Netflix “Anne with an e” e ao livro, ainda no prelo, “Nunca deixe de acreditar”. Embora o primeiro seja uma ficção e o segundo um relato real, as duas histórias têm muito em comum, pelo menos no meu ponto de vista.

Anne é uma garota órfã de 11 anos. Durante um tempo, ela viveu na casa de uma família, onde trabalhava muito, cuidava das crianças e muitas vezes era espancada. Depois da morte do pai da família, a mãe decide que não deve mais ficar com Anne e a devolve ao orfanato. A história na série começa quando o casal de irmãos Cuthbert decide adotar um menino para ajudá-lo nos afazeres da propriedade Green Gables. Bem, por conta de uma falha de comunicação, em vez de o orfanato mandar um garoto, é Anne quem acaba sendo destinada à adoção para os Cuthbert. Claro que no início do século passado, as mulheres não tinham o lugar que têm hoje na sociedade. Todas as famílias queriam ter um menino.

Órfã é a característica que marca Anne. Sempre que é apresentada à sociedade, dizem: “Esta é Anne. A órfã”. Sim, ela é órfã, mas é muito mais do que isso. Contextualizando: Anne — uma garota que viveu no início do século XX, em que as mulheres eram desvalorizadas, “treinadas” a apenas concordar, não ter opinião, aceitar tudo — não permitia que dissessem que ela não poderia fazer as coisas que meninos fazem, nem a recusá-la por ser órfã ou por qualquer erro que havia cometido. 

Quase um século depois do contexto da história de Anne, temos a história real de Christina Rickardsson relatada no livro Nunca deixe de acreditar. Vou contar um pouco da história dela, assim como fiz com Anne. Christiana (sim, aqui é Christiana) nasceu em Diamantina e até os cinco anos de idade viveu em uma caverna, apenas ela e a mãe. Por motivos de “tinha gente má perseguindo elas”, as duas foram para São Paulo. Claro que lá a vida não foi muito gentil e elas moravam nas ruas. Como a mãe de Christiana precisava trabalhar, ela passava a maior parte do tempo sozinha, roubando, pedindo dinheiro, passando fome e sendo invisível pela sociedade. Durante um tempo, ela viveu em uma favela, conheceu uma grande amiga, vivenciou coisas terríveis e aprendeu que a vida, de fato, não era fácil.

Christiana acabou ganhando um irmãozinho e ela realmente amava aquele garoto e cuidar dele, às vezes, era seu passatempo. A questão é que agora a mãe não poderia mais deixar Christiana nas ruas com um bebê pequeno. Sim, a solução foi colocá-los em um orfanato, com a promessa de que todos os domingos, a mãe os visitaria e depois de um tempo, eles poderiam viver todos juntos. A questão é que existem pessoas que fazem planos em cima dos planos da vida de outros, né?! E a direção do orfanato decidiu que a mãe de Christiana não poderia mais visitá-los. Foi triste. Christiana sofreu muito muito. Pensou em fugir várias vezes, mas percebeu que não daria certo, já que ela jamais deixaria seu irmão para trás.

Além de ter sido privada de ver a mãe, a vida no orfanato era bem cruel. Era a lei do mais forte sempre. E durante a leitura, percebe-se que Christiana precisou se tornar uma pessoa dura, instável e muitas vezes violenta para poder sobreviver.Quando tudo parecia perdido, quando ela achava mesmo que o destino era ser solitária neste mundo, veio a adoção. Uma família sueca aceitou adotar o casal de irmãos… E por isso Christiana agora é Christina.

As semelhanças dessas histórias podem não parecer, à primeira vista, muito evidentes. Anne era órfã. O que parecia ser um defeito terrível da garota. Em uma cena na série, mostra claramente a sociedade a tratando como um rato sujo, nojento, indigno. Christiana não era órfã, mas tampouco tinha privilégios, vida confortável ou “valor” perante a sociedade. Era um rato sujo, nojento, indigno. Embora as duas sejam extremamente fortes, lutam pelo que acreditam e pelo que querem, a grande similaridade das histórias não está nelas, e sim ao redor delas, e, na minha opinião, é a grande vilã disso tudo: a sociedade.

Felizmente, principalmente no caso real de Christiana, as histórias têm finais felizes. Mas e aí? Quantas outras crianças já não viveram e morreram sendo ratos da sociedade? Quantas pessoas nunca tiveram a oportunidade de ter pelo menos um momento feliz que valesse a pena todo o sofrimento? A culpa não é apenas dos líderes do nosso país, ou do planeta. A culpa começa com a gente. Ou você nunca passou por uma criança de rua e fingiu que não viu? Nunca olhou com pena para uma criança porque era “órfã”? Eu já fiz isso. E é por isso que as duas histórias mexeram comigo. Dói saber que eu posso ter passado por uma Christiana e fingido que não havia ninguém ali. 

Se não houver uma mudança em nós mesmos, não sei onde vamos parar. Tenho medo de pensar. E chego quase à beira da loucura ao pensar que somos raça da mesma raça fazendo mal a nós mesmos e isso gera um círculo vicioso inacabável.

Escrito pela nossa Gerente do Editorial, Livia L. Mendes.

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