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Amanda Lindhout, autora de “A casa do céu”, é destaque em jornal O Globo

11 de Novembro de 2013 | É Notícia

RIO - Em agosto de 2008, a canadense Amanda Lindhout, então com 26 anos, viajou à Somália. Jornalista freelancer, queria visitar um acampamento em Mogadíscio, onde a médica Hawa Abdi, indicada ao Prêmio Nobel da Paz, atendia 90 mil refugiados somalis que passavam fome e sede, longe do foco da grande mídia. O plano era ficar uma semana. Mas Amanda e o fotógrafo australiano Nigel Brennan, que a acompanhara, foram sequestrados por milicianos islâmicos somalis três dias depois de chegarem ao país. O que se seguiu foram 460 dias de sofrimento, violência física, sexual, e muitas incertezas.

A libertação veio num dia aparentemente igual aos outros no cativeiro. Os sequestradores entraram no quarto onde mantinham Amanda às escuras, soltaram as correntes de seus tornozelos e lhe passaram um telefone. Do outro lado da linha, a mãe da canadense dava a notícia: eles seriam libertados. Suas famílias deram tudo o que tinham para pagar o resgate. Desde então, Amanda voltou cinco vezes à Somália. Foi lá que montou a Fundação para o Enriquecimento Global, que ajuda crianças e mulheres que sofrem violência e abusos. Foi sua maneira de transformar uma experiência terrível em mudanças positivas, diz Amanda, que lança este mês no Brasil o livro “A Casa no Céu” (Editora Novo Conceito). A seguir, confira os principais trechos da entrevista que ela concedeu por telefone ao GLOBO.

JORNALISMO DE GUERRA

Jornalistas em locais como esses estão dispostos a correr riscos para contar histórias importantes. Há um custo pessoal. Quando fui sequestrada, as consequências foram sérias não só para minha família e amigos, mas também para o governo canadense, que gastou milhões de dólares em negociações que não deram em nada, porque meu país não paga resgates. Então aconselharia jovens jornalistas a sempre pensarem no que pode acontecer e quem pode ser afetado. Nunca tive apoio de grandes empresas, estava por conta própria. Em meu caso, o governo canadense poderia ter sido mais rápido, mas governos costumam ser muito discretos com esses temas. E existe uma grande questão de se os resgates devem ou não ser pagos. É uma conversa difícil com a família do jornalista, quando a pessoa amada está em perigo. Eu sempre tinha um contato local para me orientar. A recomendação era ter três guarda-costas, o que sabemos hoje que não bastava. Mas acho que nunca haverá segurança suficiente. Nenhum treinamento poderia evitar o que aconteceu comigo. Jornalistas em áreas de conflito deveriam ter um tipo de seguro para pagar resgates.

OS PLANOS NA SOMÁLIA

Sabia que a Somália era um dos países mais perigosos do mundo e estava consciente dos riscos. Mas conhecia o Afeganistão, tinha morado em Bagdá, no Iraque. Você se acostuma ao conflito de alguma maneira e, até que que ocorra algo, acha que nunca vai acontecer nada. Ir à Somália não parecia ser muito diferente de onde eu já vivia. E era uma história muito pouco noticiada, já que a grande mídia tinha parado de mandar correspondentes ao país devido ao perigo. Aí entram os freelancers. E você tem certo sentimento de invencibilidade quando tem 20 e poucos anos.

O SEQUESTRO

Eles disseram que era por dinheiro. O mais novo tinha 14 anos. Eram adolescentes, sem acesso à educação, a maioria de órfãos, produto desse ambiente de guerra. Havia um líder, entre seus 20 e 30 anos. Ele já tinha viajado um pouco pelo mundo, tinha educação universitária e sabia o quanto poderíamos valer para eles. Os mais novos eram nossos guardas. O líder aparecia a cada duas semanas e ligava para minha mãe pedindo dinheiro. Alguns dos mais novos achavam que estavam fazendo sua jihad. Eram fundamentalistas, queriam ser homens-bomba, nos contavam isso. E eram os que mais nos maltratavam. Eu era insignificante por ser mulher. Para eles, as mulheres só serviam para fazer sexo, ter filhos e cozinhar. Era como se eu não fosse um ser humano, ainda mais refém e sendo estrangeira.

O CATIVEIRO

No começo, foi um choque, você não acredita. E foi ficando mais violento. Com cinco meses de cativeiro, tentamos fugir. Cavamos um buraco no banheiro, mas fizemos muito barulho ao pular, e os sequestradores perceberam. Caminhamos até uma mesquita, mas eles nos encontraram. Só tivemos liberdade por 45 minutos. Eles nos arrastaram para fora da mesquita e nos meteram num caminhão. Fomos colocados em quartos separados, sem luz. O resto do tempo foi muito difícil. Fui abusada, deixada com fome e no escuro, maltratada de todos os jeitos possíveis.

CONVERSÃO AO ISLÃ

Brennan e eu nos convertemos ao islamismo como estratégia de sobrevivência. Com todo respeito à religião, não nos convertemos com nossos corações. Foi para nos aproximar dos sequestradores o máximo possível para ter um tratamento melhor. Pedimos para ser convertidos, e sabíamos que provavelmente aceitariam. Eles até nos deram um Corão em inglês e em árabe, que foi importante não só para entender o que eles pensavam como para ajudar na comunicação.

A LIBERDADE

Minha família perdeu tudo o que tinha para pagar o resgate. Naquele dia, os sequestradores entraram e tiraram as correntes dos meus tornozelos. Então alguém me passou um telefone e minha mãe disse que eu estava livre. Não acreditava. Era algo que eu desejei tanto, mas os primeiros dias foram muito difíceis. Não sabia diferenciar o que era real do que não era. Tive muitos pesadelos, foi confuso.

A CASA NO CÉU

A casa no céu foi um lugar que criei em minha mente no qual eu escapava da violência e sonhava com a vida que eu queria ter se conseguisse sair. Era onde ainda podia me lembrar da beleza do mundo. Fiz várias promessas para mim mesma sobre a pessoa que queria ser. O livro foi uma catarse. A ideia era dividir uma história de sobrevivência com outras pessoas. Muitas me questionam por que fui à Somália, o que uma mulher jovem, jornalista freelancer, foi fazer lá. Mas elas não me dizem nada que eu já não tenha pensado. Não foi minha escolha mais inteligente, aos 26 anos, sem muita experiência jornalística. Se tenho arrependimento? Algumas vezes. Se pudesse voltar no tempo e não ir à Somália, faria isso. Mas não posso. Então não adianta insistir nisso. E, passados alguns anos, acho que hoje sou uma pessoa melhor. Penso mais no que acontece no mundo. Dou mais valor ao céu, à comida, à minha família, meus amigos.

A FUNDAÇÃO

Nos últimos três anos, construí essa instituição que atende a mais de duas mil pessoas com bolsas de estudos em universidades, programas de apoio a mulheres. Voltei à Somália cinco vezes, a última há um ano. Cada vez é diferente. Mas sinto uma conexão com aquelas mulheres. E muito do trabalho que fazemos é com a doutora Hawa Abdi, responsável pelo acampamento que ia visitar quando fui sequestrada. Arrecadamos mais de meio milhão de dólares para construir escolas, poços de água potável. O curioso é que naquela viagem fui com a esperança de que alguém conhecesse e ajudasse aquela mulher com um trabalho tão nobre. E, por causa do que aconteceu, posso ajudar.

CONTATO COM OS RAPTORES

Eles não foram presos, e nunca serão, porque o governo da Somália é ineficiente. Tenho que aceitar isso. Mas, há uns dois anos, fui contatada por um dos sequestradores. O líder do grupo me mandou uma mensagem pelo Facebook para me parabenizar pelo trabalho que eu estava fazendo com as mulheres na Somália. Inacreditável, não é? Mas, de certa forma, gostei de saber que eles sabem das escolhas que eu fiz. É bom saber que os homens que me violentaram e abusaram de mim sabem que optei por uma ação de compaixão, em vez de deixar que a situação acabasse comigo. Isso já é uma forma de justiça.

Fonte: O Globo

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