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Vários motivos para não ser escritor

27 de Maio de 2014 | Tammy Luciano

Existe uma curiosidade enorme em torno da minha escolha em ser escritora. Quando explico minha paixão por escrever, minha vontade de passar horas e horas em frente ao computador, contando sobre a vida de uma personagem, meu desejo de ser alguém nesse planeta enorme com um trabalho que acho admirável, a pessoa normalmente faz cara de “tô fora”. Talvez ser escritor seja mesmo uma roubada e eu tenha sido mais uma louca, insanamente apaixonada pela arte de escrever. Você quer ser escritor? Eu tenho mil motivos para falar sobre a profissão mais linda de todas, mas, ao contrário disso, vou deixar aqui alguns motivos para você desistir da profissão.

Antes de mais nada, aceite, se quiser seu livro sendo lançado e invadindo as livrarias, seu trabalho será público e muita gente estará lendo. Quando isso acontecer, em algumas situações, você se sentirá pequeno. Atualmente, muita gente diz ter lido um livro meu, sem a menor noção sobre a minha autoria. Isso me dá uma tristeza e quase pergunto: Você não viu minha foto na orelha quando leu? Não reparou o meu nome na capa? A realidade é que nem sempre somos importantes para o leitor, mesmo que nosso ego diga o contrário. Entendi, com o passar do tempo, que meus livros iriam muito além de quem o escreveu, porque, para certos leitores, o nome do autor passa batido. Melhor nem comentar sobre quando alguém ressalta outra autoria em um livro meu, para não decepcionar você.

Quando seu livro assumir vida própria, vai confirmar a quantidade de gente comentando sobre sua literatura, sem se preocupar se você tem um coração. Eu já chorei lendo resenha, minha família já sofreu com algumas declarações. Isso, confesso, acaba comigo, já que as pessoas próximas a mim não escolheram a minha carreira, mas dividem todas as dores e delícias. Aprendi a me manter forte, a buscar numa situação dessas, as ferramentas para melhorar a minha escrita. Nem sempre é fácil ser chutado, insultado através do seu próprio livro, mas depois você entende que as críticas nos fazem forte, nos importam e, ruins ou boas, nos divulgam.

Ser escritor é pensar várias horas do dia nas suas personagens. Muitas vezes, pessoas falam comigo, mas estou longe. Tento me trazer para a realidade, ter meus pés no chão, mas aviso, a profissão de escritor está no reino dos sonhos. Eu encontro minhas personagens acordada e até enquanto durmo. Finjo que não noto o quanto influenciam minha rotina, mas dirigindo, descubro seu passado, navegando na internet, reflito sobre seus dramas. As pessoas que invento vivem enquanto respiro. Nunca você terá a tranquilidade de existir em uma vida só. Minha cabeça segue conectada às histórias que crio, nas pessoas imaginárias dentro de mim que me impulsionam a contar seus dramas.

Para escrever é preciso paciência. Não falo da paciência superficial, dessas que a gente tira do bolso para esperar a comida no restaurante. Falo da espera de ficar sentado, com ou sem inspiração, até que as personagens resolvam agir e explodir suas emoções. Não é fácil escrever todos os dias, manter uma rotina de trabalho. Depois, ainda vem a exaustiva a revisão. Procurar erros de português, discutir com o seu editor os caminhos do livro, preparar melhor um parágrafo, reler mais vezes do que imaginou. Com o livro pronto, chega a fase de esperar pelo seu lançamento, depois que o livro faça sucesso, os leitores comentem sobre ele. Esperar é um verbo bem natural na profissão de quem escreve. 

Apesar dessa emersão profunda, um escritor demora a conseguir sua estrutura para poder viver da carreira. O que vamos combinar, não é algo fácil para explicar para a família. “Você passa horas nesse quarto e não ganha nada?” Lembro que escrevi pelos menos uns dez anos sem ganhar por isso, apenas me divulgando. Minha família foi maravilhosa, mas compreendo não ter sido fácil. Não funciona como quando alguém se forma e se coloca no mercado, encontrando facilmente uma vaga ótima. O mercado editorial é um funil e poucos conseguem entrar em uma grande editora. Alguns escritores demoram 15 anos para ter ganhos relevantes e conseguir comprar com o seu dinheiro o computador para produzir seus textos. O primeiro salário recebido me pareceu estranho: vão me pagar para fazer o que amo? Hoje vejo o dinheiro não só para a manutenção da minha rotina, vivendo disso, mas para alimentar minha contribuição para a literatura.

Fico feliz quando dizem que faço parte dessa nova geração de escritores, entretanto, nunca quis ser famosa, apesar de hoje amar ser reconhecida pelo meu trabalho. Se você deseja ser escritor, porque quer fama, esqueça. A gente anda na rua e raramente alguém reconhece. Outro dia, estava no supermercado, uma senhora parou do meu lado e disse: "Minha filha é fã dos seus livros". Posso garantir, esse fato não faz parte do meu dia a dia e cheguei a pensar que fosse brincadeira. Claro, em feiras e bienais do livro, hoje, sou mais conhecida, mas também demorou. Fiz muita Bienal me apresentando, até que começassem a me procurar. Então se quer ser famoso, comentado, na moda, talvez o melhor seja tentar a carreira de modelo, cantor, ator...

Depois desse balde de água fria, se você acha que encara isso e continua apaixonado pela profissão, posso garantir, existem muitos motivos para abraçar essa carreira: o carinho dos leitores lava a alma, o Brasil precisa de muitos escritores, dividir seus pensamentos com alguém se torna uma realização, viajar o Brasil todo falando sobre livros, encanta a profissão do escritor que é definitivamente uma das mais dignas e só você saberá o que sentiu ao terminar um livro. Encerro com a constatação mais intensa confirmada a cada publicação, que toda história tem um lado de amadurecimento, como se você pudesse viver várias vidas de uma vez só vez e aprender como um mergulho no ar, a voar sem asas.

"...Se não vir estourando de você, apesar de tudo, não escreva. A menos que isso saia de você sem permissão do seu coração, da sua mente, e da sua boca e seu âmago, não escreva". (Charles Bukowski) 

Até semana que vem!

Seja sempre feliz!

4 pessoas comentaram

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Rodrigo Rahmati

Rodrigo Rahmati - 27 de Maio de 2014 às 16:30

Parabéns pelo texto!... e pela paciência. Estou no começo disso tudo ainda, e um começo desde 2006. Tudo o que você falou é verdadeiríssimo, e, apesar de ser como um funil, acaba funcionando como um filtro. Só os fortes (e pacientes) sobrevivem =)

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Fernanda Faleiro

Fernanda Faleiro - 27 de Maio de 2014 às 13:40

É bem complicado mesmo, pouca gente entende essa escolha, sempre que digo que estou escrevendo um livro, vejo a cara de espanto das pessoas.

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Fernanda Faleiro - 27 de Maio de 2014 às 13:41

Ops mandei enter antes de ter acabado rsrsrsrs coisas de Fernanda. Mas é isso amiga, nós escolhemos dificuldades duplamente, como atrizes e como autoras rsrs Bjos!!

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Edson Gomes

Edson Gomes - 27 de Maio de 2014 às 13:03

Há uma coisa que faz o autor escrever sem receber: o amor pela profissão. Só quem ama passa de 11 a 12 horas por dia diante de um computador escrevendo uma história, que não sabe se será lida por alguém algum dia. Belo texto, Tammy!

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