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Uma escada, Jane Austen e as entranhas de uma escrita

14 de Outubro de 2014 | Tammy Luciano

Então, eu dei um passo na escada do meu prédio e percebi: vou cair escada abaixo. Caí. O pé escorregou em um degrau, senti que meu corpo ficou no ar, vi meu pé torcendo descaradamente, girando de uma maneira estranha e tentei manter a calma. Levantei, buscando me equilibrar, mas deu errado e rolei na escada novamente, até que meu ombro encontrasse uma parede e parasse meu corpo. Meio atordoada, senti o som do silêncio gritar no meu ouvido. Olhei para os lados e ninguém por perto. Alguém tinha que aparecer. Nada. Permaneci uns longos minutos esperando acalmar a respiração. Levantei e concluí que estava tudo “bem” comigo. Meu pé doía, mas como sou uma otimista, imaginei não ter sido nada demais. Horas depois, fui atendida em um hospital com problemas no ligamento do pé direito e tive que imobilizá-lo.   

Por que estou dizendo isso? Não sei exatamente. Talvez porque, enquanto estava no carro, olhando pela janela o mar, na ponte Rio-Niterói, quando fui palestrar para os alunos do Colégio da Polícia Militar, fiquei pensando que minha próxima personagem cairia de uma escada, rolaria os degraus e ficaria com o pé imobilizado. Pergunto: quanto de um escritor tem uma história? É difícil prever, saber e, mesmo quem escreve, não pode confirmar: isso é ficção, isso eu vivi, isso alguém que conheço viveu. Não será esse o charme da Literatura? Histórias, verdades, mistérios, pessoas e vivências misturadas em um só livro?

 

Lendo sobre Jane Austen (1775 – 1817), entendemos que pequenos universos falam também do grande mundo. Ela viveu e escreveu a vida no século XVIII, em um condado da Inglaterra e de lá suas palavras saíram para o mundo. A fonte de inspiração para sua ficção envolvia as poucas pessoas com quem se relacionava. A própria Austen confirmava isso: “Três ou quatro famílias em uma aldeia é tudo de que preciso para trabalhar”. E o mais emocionante é que Jane Austen surpreende quando caminha por décadas sendo cada dia mais lida por leitores de todo o mundo, fazendo as pessoas se identificarem com seus textos e sentimentos. 

Será que um dia irei me surpreender relendo um livro meu e pensando: nossa, escrevi sobre ficção, mas nas entrelinhas sou eu? Ou o autor tem sempre domínio dos seus sentimentos? Muito autores, em começo de carreira, cometem o erro de só falarem de si, escrevendo seus livros como biografias secretas. Evito contar sobre minha vida pessoal, mas indiretamente estou em cada linha dos meus livros. Coloco amigas minhas como amigas das personagens, prefiro escrever sobre lugares que já fui e, em alguns momentos, vejo meus próprios sentimentos no coração das personagens. Tudo isso sem falar de mim, fugindo de contar a história da minha vida. 

A pergunta que faço é: será que o leitor está lendo um livro, podendo conhecer mais do autor? Pode ser que sim. Pode ser que não. Afinal, muitas atitudes que discordo, coloco como características de uma antagonista. Em Claro que te amo, Piera foi abandonada pela mãe quando tinha um mês de vida. Eu tenho meus pais comigo. Como foi viver sem mãe? Não tenho ideia, mas imaginei, pesquisei, li e lá estava Piera uma vida inteira sem a mãe.

Os processos de escrita de um escritor têm muito a ser refletido. Nem tudo é palpável, compreensível ou regra. Cada escritor tem seu jeito de escrever, suas próprias descobertas e coloca um pouco de si, conforme suas próprias decisões. Esse será sempre um mistério para o leitor. E podem ter certeza, para nós escritores também.  

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