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Quem manda no livro, afinal?

27 de Fevereiro de 2014 | Tammy Luciano

Quem manda no livro, afinal?

                  Christine vai caminhando apressada. Abre uma porta com os cabelos voando ao vento, entra em um restaurante, senta em uma mesa e, com as mãos trêmulas, espera a chegada de alguém. Essa é uma das muitas cenas que chegam na minha cabeça. Um momento sem maiores motivos, como se esperasse que eu tome jeito e sente para pensar mais sobre a nova personagem que explode no pensamento. Escritor tem dessas “coisas”. Não temos tanto tempo livre e de paz, como a maioria das pessoas imagina. Não estou querendo com isso ressaltar o profissional de escrita como alguém especial, pelo contrário, somos grandes condutores de histórias e elas mandam na gente com a força do chefe durão e exigente.

                 Christine olha para trás, esperando que alguém entre pela porta. Seu nervoso seria visível, caso alguém estivesse preocupado em observá-la, mas todos estão ligados demais às próprias vidas e Christine, sozinha, esfrega as mãos, como quem tenta se distrair com um tricô. Talvez, eu nunca escreva essa história. A Christine fica aqui registrada como uma homenagem para minha amiga escritora Christine M. e eu esqueça a personagem entre tantos textos inacabados. E aí que mora a pergunta: o que nos faz escrever uma história até o final? Quem realmente manda? O escritor vencendo o cansaço, superando os desafios diários para chegar na reta final dessa história, ou a personagem que chega com tanta força, que fica impossível não retratá-la com seus conflitos?

               Lembro de um momento crucial de “Claro Que Te Amo!”, quando a Piera, minha protagonista, fez exatamente o inesperado e me surpreendeu, assustada, desistindo de sua própria felicidade. Tentei argumentar com elegância de autora, na intimidade, com a criação: Piera, sua maluca, o que está fazendo com a própria felicidade? De que adiantou falar? Ela fez o que queria, seguiu com seu pensamento imaturo, decidiu se fechar e mostrou sua verdade mais magoada do que a autora tinha imaginado. Ainda bem, o destino a queria feliz... E hoje, com o livro pronto, compreendo sua trajetória.

             Aliás, isso é um ponto a ser comentado aqui. Minhas personagens carregam pouco de mim. Nunca fui dada a grandes confusões internas, crises e depressões. Na minha casa, sempre me avaliaram como a otimista: “Se o copo está na metade, a Tammy vai dizer que está quase cheio”. Não agiria como muitas das minhas protagonistas, mas tento, em vão, encurtar o drama das personagens, querendo que sejam mais exatas, simples, realistas e objetivas. No próximo livro, a protagonista me parece sensata e me identifico mais com suas atitudes.

              Essa força, acontecendo quase como a naturalidade de uma respiração, faz o escritor ser ainda mais confiante em acabar um livro. Será que o leitor percebe que não mandamos tanto no original como parece? Ouso dizer que, quando o escritor desanima, quem leva o livro adiante são as personagens: “Ou, não vai continuar escrevendo minha história? Vou ficar aqui, sentada nessa mesa, esperando alguém chegar, até quando?”. Em algum momento, a gente tem a certeza que chegaremos na reta final, por ser muito importante para a protagonista e não podemos decepcionar alguém tão importante na nossa vida. Vamos escrevendo, entendendo existir uma força com mais poder do que nosso singelo pensamento. Em parte, esse furacão interno no livro nos ajuda a compreender a literatura muito maior do que qualquer escritor-pessoa-física.

              Christine finalmente sente a mão em seu ombro. É ele. Os dois se olham e ela percebe: não pode viver sem esse homem. Fez o certo ao aceitar reencontrá-lo.

            Os livros não se escrevem sozinhos, mas, depois de prontos, quem somos nós escritores perto deles? E para vocês, leitores, quem manda no livro, afinal?

 Sejam sempre felizes.

Até semana que vem!            

Até semana que vem!

4 pessoas comentaram

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Edson Gomes

Edson Gomes - 28 de Fevereiro de 2014 às 13:07

Aqui no texto da Tammy, podemos ver a história por trás da história. Os bastidores da criação literária, em sua plenitude. Belo post! Beijos.

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Fernanda Faleiro

Fernanda Faleiro - 27 de Fevereiro de 2014 às 15:38

Antes de pensar em escrever algo, eu lia coisas assim e pensava: gente como que o personagem que manda? Isso não existe! Hoje vejo como é verdade, eles ganham vida e as vezes a estória muda completamente daquilo que tínhamos na cabeça. Bjos!!

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Bia Carvalho

Bia Carvalho - 27 de Fevereiro de 2014 às 13:12

Não há como não se identificar com o texto. Como autora, gosto de brincar que sou esquizofrênica e que os personagens conversam comigo nos momentos mais inusitados. Adorei, Tammy! Parabéns pela coluna, estou AMANDO! Bjks

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Vanessa Sueroz - 05 de Março de 2014 às 21:46

Não posso falar absolutamente nada, pois meus personagens tem vida própria também. Fazem o que bem entendem e as vezes até reclamam das situações que coloco eles rsrsrs Adorei o Texto Tammy

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