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Onde fica o real para uma escritora de ficção? (Ou Mea Culpa da escritora)

19 de Março de 2014 | Tammy Luciano

Eu escrevo ficção, invento histórias, crio momentos, troco objetos de lugar, pego algo vivido por alguém e transformo, fazendo a própria pessoa não reconhecer aquele momento como seu. Mas, mesmo deixando bem claro, sou uma escritora de criações inventadas, leitores acabam comparando os acontecimentos dos livros com o seu mundo real. Assim ocorre, como nas novelas em que, não raramente, os telespectadores ficam reclamando: “Isso não existe, até parece... Acorda, autor, pirou?” Nessas horas, fico com vontade de dizer: mas escritor é pago para pirar, ou sonhar.

Eu não bebo e não fumo - jamais, nunca, nem penso sobre essa possibilidade, também nada tenho contra quem gosta -, mas quando o assunto são os meus livros, adoro viajar nas ondas da imaginação. Gosto da ideia de ir além da vida rotineira, de ousar em alguma cena, de criar possibilidades distantes da realidade. Também não fico muito preocupada em retratar o fato como deveria ser, se acontecesse na nossa existência. A realidade anda tão azeda. Para mim, a graça da literatura ficcional gira em torno de liberdade para a criação. Garota Replay tinha muitos detalhes assim, mesmo sendo pautado na realidade. O próximo livro virá com surpresas nessa linha. Talvez me cobrem sobre as “piradas”, mas escrevi tão convicta e me fez tão bem... Espero causar o mesmo efeito na maioria de vocês.

Enfim, escrevo essa crônica porque há semanas, reflito sobre um ocorrido. Isso não é uma reclamação, apenas uma questão a ser pensada. Uma resenha comentava Garota Replay, mas um detalhe sobressaiu e ficou dançando nos meus neurônios. A blogueira reclamava que coloquei a cidade de Ronda na Itália, quando sua localização correta é na Espanha e comenta algo como: “Não notaria caso eu não conhecesse Ronda. Estive lá e fica na Espanha!”. Ela estava bem chateada. Eu também fiquei. Ah, Ronda, por que você não fica na Itália? Por que cargas d´água coloquei a cidade no país errado? Ah, escritora, como comete um erro desses? Passou, não vi, troquei, talvez o cansaço no final da revisão me fez cometer esse absurdo. E compactuo com a leitora-blogueira: se tivesse conhecido Ronda e alguém trocasse o lugar de país, também ficaria uma fera. Senti vontade de escrever: blogueira querida, perdoe a escritora e não fique brava comigo.

Depois tentando me sentir melhor, na defensiva, pensei: escrevo ficção. Apenas um dos meus livros foi uma biografia e chequei cada informação, porque não podia errar fatos reais e cometer um lapso, comprometendo pessoas... Meus outros livros não têm esse compromisso com a verdade. Em Garota Replay, o livro narrado na primeira pessoa por Thizi, abre precedente para a personagem trocar a cidade de Ronda de lugar. Confundiu, enquanto contava sobre as viagens dos pais. Segura essa por mim, Thizi!

Será mesmo que preciso ser criteriosa quando o assunto se refere a um livro de ficção com o planeta Terra sendo um outro planeta? Afinal, nenhuma das minhas personagens mora aqui nesse mundo de verdade. Elas são de outras dimensões e me dão margem para não respeitar geograficamente os territórios. Ai, estou começando a me sentir leve. Decretei agora, que a cidade de Ronda, em Garota Replay, fica na Itália. Posso fazer assim? A literatura ficcional nos permite não termos preocupação com fatos, nomes e situações? Volto mais uma vez a citar a novela. Já reparou como as personagens conseguem chegar rápido nos aeroportos? Raramente, temos um engarrafamento daqueles, só quando o autor precisa. Como ganham dinheiro fácil? Personagens só passam problemas financeiros, quando fazem parte da trama. Afinal, queremos distrair a cabeça das pessoas e não ficar se preocupando se a protagonista vai ou não pagar a sua conta de luz.

Uma certeza, tenho hoje. Vivemos desejando sair do cotidiano, fugir da realidade, mas, quando alguém faz isso, despretensiosamente, deixando de lado preocupações com o rotineiro, nos incomodamos. Talvez a realidade, entranhada na derme, nos faça desconfortável de uma maneira tal, que nos foge a coragem de aceitar sem cobrar referências, padrões e comprometimento com o fato, e sem que ele tenha o direito de ser errado, sendo certo.

Pelo sim, o não, o não sei, o desculpe muitíssimo e o você tem sua razão, avisarei a Editora para que seja feita a correção na próxima impressão do livro.

Sejam sempre felizes!

Até semana que vem!

2 pessoas comentaram

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Mayara Tashiro

Mayara Tashiro - 21 de Março de 2014 às 18:41

Achei até cabível a desculpa que a escritora dá pelo erro, eu nem reparei mesmo quando li GR.

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Claudio Augusto Martins Augusto

Claudio Augusto Martins Augusto - 19 de Março de 2014 às 20:40

eu amo ler historias de amor da Tammy Luciano ela é uma ótima escritora

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