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Um apólogo – versão 2014

13 de Março de 2014 | Marina Carvalho

Apólogo

Que me desculpe Machado de Assis, de onde quer que ele esteja, mas não resisti a fazer uma releitura de seu famoso conto, cujas personagens – uma agulha e uma linha – discutem qual delas é a mais importante. Bom, quem não conhece a história pode clicar AQUI e conferir de onde veio minha inspiração para o texto de hoje.

A ideia surgiu durante uma aula, quando meus alunos e eu líamos uma entrevista com a reconhecida autora mineira Vivina de Assis Viana. Em um de seus depoimentos, ela ressalta seu amor por canetas. Sentindo uma imensa identificação com essa paixão, resolvi prestar minha homenagem a um dos mais imprescindíveis objetos na vida de qualquer pessoa que ame as palavras.

Vamos ao texto:

Era uma vez uma caneta, que disse a uma folha de papel:

- Por que você se está toda orgulhosa, imponente, sentindo-se como se fosse a coisa mais importante deste mundo?

- Deixe-me!

- Deixar você? Como? Não percebe que sem mim você não é nada? Um papel sem tinta é como um endereço sem número, Páscoa sem chocolate, Natal sem presente.

- Até parece! Uma caneta é apenas um objeto sem valor, uma coisa pontuda, magra e sem graça. Ai de vocês sem nós, folhas de papel!

- Mas você é orgulhosa, hein!

- Claro que sou!

- Mas por quê?

- Ora, essa pergunta é fácil de responder. Onde mais nossa “ama” pode escrever seus textos? Em quem ela deposita suas palavras, deixando suas emoções fluírem? Quem é seu ouvido silencioso, confidente, ombro amigo? Quem? 

- Você? Rárárá! Essa agora é muito boa. Você é a confidente da “ama”! Sem mim, os pensamentos dela não passariam disto: pensamento!

- Você põe a tinta, nada mais. E ainda por cima, vive falhando, manchando... Um horror!

- E você rasga, amassa, amarela.

Estavam nisso quando a “ama” chegou. Depois de um longo dia de trabalho na escola onde lecionava, ela só queria mergulhar em seus textos, que tanto a divertiam quanto a transportavam para outros mundos, existentes apenas em sua imaginação.

Então ela pegou o papel, a caneta e logo a página estava repleta de poesia. Enquanto as palavras nasciam num ritmo veloz, a esferográfica encarava a folha, que devolvia o olhar com a mesma intensidade feroz.

Por fim, quando tudo terminou, a “ama” dobrou o papel e guardou-o na gaveta da escrivaninha, junto com a caneta. Deu um suspiro longo e exclamou:

- Ah! Como eu amo as palavras.

Assim, entreolhando-se, caneta e folha de papel perceberam que ambas eram importantes para que as palavras, tão amadas e queridas pela “ama”, só podiam ganhar forma com a ajuda das duas, num mesmo grau de importância.

Esquecendo as picuinhas de lado, elas se cumprimentaram polidamente. Se tivessem mãos, teriam selado a paz com um aperto.

Quanto a mim, Marina Carvalho, apesar de toda a tecnologia, de ter um computador de última geração, não dispenso o velho papel e a caneta. São meus companheiros de todas as horas, aqueles que permitem que meus devaneios sejam transportados da mente para a vida real.

Espero que tenham viajado comigo nesta história. E aproveito para registrar: meu sonho é ter uma caneta-tinteiro original, igual as usadas por Machado de Assis. Ai, ai...

Um abraço a todos e até a próxima semana!

1 pessoa comentou

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Osvaldo Guarilha

Osvaldo Guarilha - 13 de Março de 2014 às 15:54

Bonito apólogo, Marina. De fato, toda a tecnologia do mundo não substitui o prazer de escrever usando a própria caligrafia. O papel e a caneta, assim como o lápis, são de suma importância para registrar nossos pensamentos.

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