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Textos do passado

06 de Fevereiro de 2014 | Marina Carvalho

Diário de Rafaela Zambom – parte 2

Hoje libero mais um trechinho de uma história antiga, que escrevi tempos atrás....

 

Cabo Frio, 16 de janeiro de 2000. 5:00 da manhã            

Eu não consigo pegar no sono e como a minha cabeça está cheia de palavras, preciso escrever. A Paula está dormindo feito uma pedra aqui do meu lado, mas os acontecimentos de ontem à noite foram tão surreais que não dá para dormir assim, sem mais nem menos. Já repassei tudo o que aconteceu umas mil vezes na minha cabeça e ainda não consigo acreditar que era eu mesma, lá naquele banco, com o Pedro.

Depois que a gente saiu da lanchonete, precisei avisar à Paula que não ia assistir ao show. Ela ficou olhando para mim com uma cara de pateta, esperando que eu desse uma boa explicação. Mas quando ela viu o Pedro logo atrás de mim, ficou fazendo um monte de sinal maluco, tentando me mostrar que havia entendido tudo. Passei a maior vergonha, porque até uma criança teria percebido que ela estava jogando indiretas, que, por sinal, eram bem diretas. Tipo assim:

PAULA: Ah, é! - bateu a mão na testa. - Você não gosta de axé.

EU: Vou ficar ali perto da lanchonete. Encontra comigo lá quando o show terminar.

PAULA: Tem certeza? - detalhe que ela fez a pergunta para mim, mas olhando para Pedro. - Não prefere que o Pedro te acompanhe até em casa?

EU - vermelha feito um pimentão, fiz uma careta para ver se ela se mancava. Pelo amor de Deus, tem hora que eu acho que a Paula tem menos neurônios do que o normal.

PAULA: Tá, tá bom! Já entendi. Te encontro, então.              

Eu mereço. Com uma amiga dessa, quem precisa de irmão mais novo?

Àquela altura, eu já estava arrependida por ter concordado em deixar de assistir ao show para conversar com o Pedro. O que a gente teria para se falar?

EU: "Uau, que noite bonita!"

ELE: "É mesmo. Será que vai chover amanhã?"

EU: "Ih, tomara que não."

Mas a verdade é que o nosso diálogo não teve nada a ver com o clima. Já de cara percebi que o Pedro não tinha nada de metido. Só porque tinha uma aparência e tanto não significava que era bobo ou esnobe. Mas foi o que eu pensei antes. E então ele me desarmou. Porque o papo dele foi bom e ficamos falando de assuntos gerais, tipo faculdade, projetos para o futuro, preferências. Foi tudo mais ou menos assim (vou tentar escrever nossas falas na íntegra para eu sempre me lembrar dessa noite):

PEDRO: Você e a Paula são amigas há bastante tempo?

EU: Ih, desde bem pequenas.

P: Mas vocês são bem diferentes. Quer dizer, ela é toda eh... maluquinha, meio estabanada, tagarela. Já você - ele parou para pensar no que ia me dizer.

Fiquei supertensa, porque ele poderia dizer qualquer coisa: "Você é séria, fechada, carrancuda, chata, sem graça, estraga-prazeres, mal-humorada". Só que, graças aos céus, Pedro só falou:

P: É meio tímida.

EU: A Paula tem energia sobrando. Não preciso me esforçar, porque a dela serve para nós duas. Mas eu não sou tímida. Só não gosto de me expor à toa. E também não gosto de encher a bola de caras que já têm o ego grande.

P (de testa franzida): Por que seu conceito sobre mim é tão baixo? A gente ainda mal se conhece e você não perde a oportunidade de me criticar. Para a sua informação, eu não tenho o ego grande. Sou um cara normal.

EU (rolando os olhos para cima): Vai dizer que as garotas não vivem arrastando asas para você? E que você não gosta?

P: É verdade. A maioria parte para o ataque. Mas nem sempre é bom, considerando que eu quase nunca sei se elas estão a fim de mim por causa da minha pessoa ou por conta da minha aparência.

EU (bem irônica): Ah, coitadinho, isso deve ser bem difícil mesmo.

Pedro riu. E, sério, quando ele ri, as coisas ficam bem complicadas, porque ele ultrapassa a barreira de "lindo" para a "de tirar o fôlego". Imagine só: um cara alto (presumo que ele tenha quase um metro e noventa), com o corpo atlético (músculos definidos, barriga tanquinho, ombros largos), cabelos escuros, quase pretos, cortados sem muito estilo, olhos verdes (um verde profundo, não muito claro a ponto de parecer frio), queixo forte, com uma leve, levíssima covinha, quase imperceptível.

Eu estava a ponto de babar quando ele perguntou:

P: O que foi?

EU (fazendo uma cara blasé): Nada. É que você faz parecer que sua vida é muito difícil.

P: Não, não é. Mas nem sempre é boa, tipo agora, que eu não sei como convencer você de que sou um cara legal e confiável.

EU: Estamos a anos-luz disso.

                

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