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A imortalidade das palavras

25 de Julho de 2014 | Lu Piras

O verbete imortal, segundo o iDicionário Aulete:

imortal
(i.mor.tal)
a.2g.
1. Que tem vida eterna (amor imortal); ETERNO; IMORREDOURO; PERPÉTUO [antôn.: Antôn.: efêmero, passageiro.].
2. Que tem duração longa e se supõe interminável (amor imortal); INEXTINGUÍVEL; INFINITO [antôn.: Antôn.: extinguível, finito.].
3. Fig. Que é lembrado por muito tempo (glória imortal); INESQUECÍVEL; MEMORÁVEL [Ant.ger.: morredouro, mortal antôn.: Antôn.: esquecível, olvidável. ].
s.2g.
4. Membro da Academia Brasileira de Letras.
[Pl.: -tais]
[F.: Do lat. immortalis,e]

Para mim, uma das mais sonoras e expressivas palavras da língua portuguesa. Gosto de lê-la, escutá-la, traduzi-la, desvendá-la. Tomei-a emprestada por diversas vezes em meus livros e, com o perdão da redundância, do trocadilho e da imodéstia, imortalizei o seu significado no contexto das histórias que criei.
A escritora que vive em mim, busca expandir o seu vocabulário e conhecer melhor o sentido e a extensão da interpretação de tudo o que anseia exprimir, palavra por palavra, frase por frase, do seu universo particular para aquele onde todos nós habitamos, literatos ou não.
A filha da pátria Brasil que vive em mim, não ignora a exuberância da carga semântica de nossa língua materna e se envaidece por ter nascido no país que imortalizou o legado de Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.
Neste mês de julho, a palavra imortal esgotou o sentido de “inesquecível”. Quatro gênios da genuína arte escrita brasileira a tomaram por empréstimo em vida, e se tornaram paradoxos na morte. A imortalidade subsiste nas palavras. Perpétuas elas serão, em si mesmas e além, através do conhecimento que transmitiram. E não o contrário. Por me sentir orgulhosa daquilo que ainda posso beber da inesgotável fonte que esses mestres da literatura me deixaram, a eles dedico esta minha primeira coluna no blog da Editora Novo Conceito:
Ivan Junqueira - Jornalista, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário. Ocupante da cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras. Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Jabuti, em 1995. Falecido em 3 de julho de 2014. Conhecido também como “o poeta do pensamento”.
João Ubaldo Ribeiro - Jornalista, escritor, roteirista, professor. Ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras. Recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Camões, em 2008. Falecido em 18 de julho de 2014. Conhecido como “o contador de histórias”.
Rubem Alves – Escritor, educador, teólogo e psicanalista. Autor de diversas obras, entre crônicas, ensaios, contos e livros sobre educação, religião e de literatura infantil. Falecido em 19 de julho de 2014. Conhecido também como “o professor de espantos”.
Ariano Suassuna - Romancista, dramaturgo, ensaísta, poeta, professor e defensor da cultura do nordeste. Ocupante da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras. Membro da Academia Pernambucana de Letras e também da Academia Paraibana de Letras. Falecido em 23 de julho de 2014. Também conhecido como “o cavaleiro do sertão”.
O que há em comum entre o poeta do pensamento, o contador de histórias, o professor de espantos e o cavaleiro do sertão? Além de escritores brasileiros, falecidos em julho de 2014 e, à exceção de Rubem Alves, membros da Academia Brasileira de Letras, todos são legítimos protagonistas da literatura brasileira. “São”, não “foram”. Os protagonistas se tornam conhecidos pelos seus feitos e lembrados pelo que são. Porque não há tempo que interfira na sua condição de imortais para os seus leitores.
Para encerrar esse meu primeiro texto, convido vocês a conhecerem um poema inédito de Ivan Junqueira.
Em vida, a imortalidade. Enfim, a liberdade.
Descansem em paz, meus mestres.

A imortalidade

O que é a imortalidade?
Um sopro que nos carrega
para os confins da orfandade,

onde o espírito se nega
e de si já não recorda
após a última entrega?

Que luz é a que nos acorda
quando a morte, em dada hora,
bate à porta e chega à borda

do ser que se vai embora,
mas crê que não vai de todo,
pois do invólucro que fora

algo fica em meio ao lodo
que lhe veste o corpo morto
com a púrpura do engodo?

E o que cabe ao que foi torto
e nunca exigiu conserto?
Irá chegar a algum porto?

Será que na alma um aperto
não lhe purgou a maldade
quando do fim se viu perto?

O que é a imortalidade?
Uma insígnia, uma medalha
com que se louva a vaidade?

Ou não será a mortalha
que te poupa só a cara
escanhoada a navalha?

Será talvez a mais rara
das obras que publicaste
ou da crítica a mais cara?

Será isto, já pensaste,
a herança em que se resume
o que aos amigos deixaste?

Esquece. Sente o perfume
de algo que se fez distante:
a mão de uma criança, o gume

de seu olhar penetrante
quando viu, no ermo do cais,
que o tempo que segue adiante

é o mesmo que volta atrás
e confunde a realidade,
e a desmantela, e a refaz.

É isto a imortalidade:
esse eterno e estranho rio
que corre em ti e te invade.

E o mais é só o pavio
de um lívido círio que arde
no insuportável vazio
que enche toda a tua tarde.

2 pessoas comentaram

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Edson Gomes

Edson Gomes - 26 de Julho de 2014 às 10:04

Belo texto, querida amiga! A imortalidade é o para sempre, sem estar presente. Esses mestres citados em seu texto, fizeram marcas profundas em forma de escritas, na literatura nacional. Não tem como esquecê-los.

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Kate Willians

Kate Willians - 25 de Julho de 2014 às 16:11

Como sempre, as suas belas palavras me encantaram, Lu! Parabéns por mais esta conquista e que Deus continue te abençoando sempre, sempre e depois do sempre... Te adoro!

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